Desigualdade social e atividade física: o paradoxo do bem-estar no Brasil

O Brasil vive um cenário que desafia a lógica. Nunca tivemos tantas academias, influenciadores de saúde e produtos voltados ao bem-estar e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão sedentários.

O Brasil vive um cenário que desafia a lógica. Nunca tivemos tantas academias, influenciadores de saúde e produtos voltados ao bem-estar e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão sedentários. Os dados não mentem: o Panorama Setorial Fitness Brasil confirma que o número de centros de atividade física quase triplicou em uma década, saltando de 22 mil em 2015 para mais de 62 mil em 2025. A tendência não mostra sinais de desaceleração. Se o ritmo persistir, ultrapassaremos a marca de 70 mil estabelecimentos já em 2027. Somos uma potência global que movimenta mais de R$ 12 bilhões anuais, mas que ainda não aprendeu a converter faturamento em movimento real para a população.

Este é o paradoxo brasileiro: o mercado de saúde acelera enquanto a saúde pública definha pela paralisia. Nas últimas décadas, a modernização do trabalho, o aumento do tempo diante de telas e a redução da atividade física no cotidiano mudaram profundamente o padrão de movimento da população. Até atividades simples, como caminhar para resolver tarefas, foram substituídas por soluções digitais.

Cerca de 47% da nossa população adulta não pratica o mínimo de exercício recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Entre os jovens, o dado é ainda mais dramático, chegando a 84%. Ocupamos o inglório posto de país mais sedentário da América Latina e o quinto no ranking mundial. Como é possível termos recordes de faturamento em suplementos e matrículas e, ao mesmo tempo, 300 mil mortes anuais decorrentes de um estilo de vida inativo?

Para os próximos anos, o cenário é preocupante. Até 2030, a Organização Mundial da Saúde prevê que a inatividade física poderá gerar 500 milhões de novos casos no mundo de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e câncer.

Neste mês de abril, quando comemoramos o Dia Mundial da Atividade Física, precisamos abandonar os clichês motivacionais das redes sociais e encarar o exercício como uma necessidade biológica e um direito social. Enquanto uma minoria paga por experiências de alto valor, a maioria da população enfrenta jornadas de trabalho exaustivas, transporte público precário e falta de segurança em espaços abertos. A expansão das academias e experiências fitness estão concentradas em regiões de maior renda, com acesso pago e lógica de consumo. Já nas periferias, o contato com o esporte ainda depende, em grande parte, de iniciativas sociais e comunitárias.

A inatividade física não é apenas uma escolha individual, mas um sintoma de abismos sociais. Globalmente, a ausência de movimento já é responsável por cerca de 5 milhões de mortes anuais, de acordo com um estudo recente da Nature Medicine, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo. A pesquisa revela que o sedentarismo não escolhe vítimas ao acaso, mas por gênero e renda. O dado mais contundente do estudo expõe que a decisão voluntária de se exercitar é um privilégio que varia drasticamente conforme a rotina de homens em nações desenvolvidas com a de mulheres em situação de vulnerabilidade em países pobres.

Reverter esse quadro exige uma mudança de mentalidade. É urgente que sejam colocadas em prática políticas públicas que incentivem a construção de espaços gratuitos e de fácil acesso para todos, como parques equipados, ciclovias, academias ao ar livre e programas comunitários de incentivo ao esporte. Todo esse processo precisa considerar fatores como renda, escolaridade e gênero.

Ao integrarmos a atividade física ao dia a dia da população, aliviamos o sistema de saúde e fortalecemos o bem-estar coletivo. Garantir que todos possam se exercitar não é apenas uma escolha de estilo de vida. É uma urgência de saúde pública e um passo fundamental para uma sociedade mais justa e ativa. O verdadeiro indicador de sucesso não é o número de academias abertas, mas a quantidade de pessoas que consegue, de fato, se movimentar. Atividade física não pode ser apenas tendência – precisa ser política pública e um direito de todos.


*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Sobre a autora: Amanda Costa, ex-atleta da seleção brasileira de handebol, atua há mais de 15 anos na promoção da saúde em comunidades vulneráveis. Fundadora do Instituto Sempre Movimento, desenvolve projetos gratuitos que unem esporte, educação e bem-estar.

Timóteo Araújo

Profissional de Educação Física, com experiência de 25 anos na área da Atividade Física, Vida Ativa e Longevidade. Atuando no Centro de Convivência AMI - Bem Estar.

Atividade Física e Longevidade

Quer receber o melhor conteúdo? Inscreva-se!

Fique por dentro!

inscreva-se para receber nossas notificações.
Eu quero!