Pesquisa mostra que desigualdade social amplia barreiras à prática de atividade física – FAPESP
O estudo que acompanhou moradores de São Paulo durante dez anos revelou que a prática de atividade física no tempo livre é altamente desigual, e o abismo entre os estratos sociais está aumentando. Enquanto homens brancos e com alta escolaridade se exercitam cada vez mais, mulheres de minorias raciais com baixa escolaridade apresentam os menores índices de atividade física no lazer. Em contrapartida, o exercício associado ao transporte urbano – como caminhar para o trabalho – distribui-se de maneira mais uniforme entre os diferentes estratos da população. Os dados foram publicados em maio no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.
Outras pesquisas desenvolvidas em países do Norte Global já trataram de fatores sociais influenciando com maior ou menor prevalência a prática esportiva, mas esta liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) tem um diferencial e é pioneira por acompanhar os 978 participantes desde 2014, com coletas de dados em três momentos: 2014/15, 2020/21 e 2023/24.
A partir da análise de como diferentes características sociais se combinam para moldar oportunidades e experiências das pessoas (conhecidas como identidades sociais interseccionais) ao longo do tempo, os cientistas defendem a priorização desses grupos mais vulneráveis em políticas públicas voltadas à promoção de atividades físicas e de lazer.
“Concluímos que a prática da atividade física no lazer não depende apenas da motivação ou de uma escolha individual. Ela é moldada por fatores ambientais, estruturais e sociais. Detectamos que as desigualdades permaneceram e o gap entre os grupos aumentou ao longo de dez anos de acompanhamento. Esse tipo de atividade, infelizmente, continua sendo um privilégio dos grupos socialmente mais favorecidos, que identificamos como homens brancos e com maior escolaridade. Por outro lado, estão entre os mais vulneráveis as mulheres pretas, pardas, amarelas ou indígenas com menos anos de estudo”, resume a nutricionista Andreia Alexandra Machado Miranda, autora correspondente do artigo e atualmente integrante do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.
Quando realizou o trabalho, Miranda era pesquisadora colaboradora no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde (GEPAF-USP), coordenado pelo professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP Alex Antonio Florindo, também autor do artigo.
“Trabalhamos com o modelo ecológico para atividade física, cujo objetivo principal é explicá-la a partir de determinantes. A prática não depende somente da vontade das pessoas, mas envolve experiências que elas podem ter ao longo da vida, o apoio social que recebem dos companheiros ou companheiras ou das famílias, além de questões externas, como o acesso ao ambiente e a políticas públicas. Existe muita distância entre quem tem ou não condições de praticar atividade física no lazer, mesmo que haja vontade”, complementa Florindo à Agência FAPESP.
De acordo com os achados, a prevalência de atividade física no tempo livre era de 51% entre homens brancos com escolaridade mais avançada e de 29% no grupo mais vulnerável no primeiro levantamento. Na terceira etapa de avaliação subiu para 65% e 39%, respectivamente, ampliando a desigualdade entre os grupos.
Miranda destaca as dificuldades relatadas pelas mulheres para a prática de esportes que extrapolam a falta de tempo. “Além de lidar com uma distribuição desigual do trabalho doméstico, muitas vezes elas têm menor remuneração no emprego e enfrentam falta de segurança para frequentar espaços públicos. Dependendo do bairro onde residem, especialmente os periféricos, há falta de infraestrutura urbana, locais sem iluminação e poucos espaços abertos”, diz a nutricionista.
Além de entrevistas presenciais e remotas, com aplicação do Questionário Internacional de Atividade Física versão longa (IPAQ, na sigla em inglês), os cientistas trabalharam com um índice de vulnerabilidade social acumulada (Multiple Jeopardy Index), que traz dados relativos ao sexo, raça/cor da pele e escolaridade, obtendo uma pontuação de 0 (menos vulnerável) a 4 (mais vulnerável).
A Figura ilustra a prevalência de APL (Atividade Física de Lazer) ao longo das três ondas do estudo, de acordo com a pontuação do Índice de Perigo. Disparidades persistentes foram observadas ao longo do período, com APL consistentemente maior entre indivíduos com menor vulnerabilidade (pontuação 0) e menor entre aqueles com maior vulnerabilidade (pontuação 4).

Com o tempo, essas desigualdades tornaram-se mais pronunciadas: enquanto o grupo de menor vulnerabilidade apresentou um aumento contínuo na APL, o grupo de maior vulnerabilidade mostrou um leve declínio entre as ondas 2 e 3. Como resultado, a diferença entre as pontuações mais baixas e mais altas do Índice de Perigo aumentou, indicando que as melhorias na APL foram distribuídas de forma desigual.
Leia a materia completa no Portal da Fapesp nesse LINK.
Florindo cita como exemplo a implantação de novas ciclovias na cidade de São Paulo nos últimos anos, política que vem estimulando os moradores a pedalarem mais. Sob a coordenação do professor, outra pesquisa constatou que a presença de ciclovias a menos de 500 metros de distância da residência foi um fator determinante para estimular o ciclismo (leia mais em: agencia.fapesp.br/58509).
A base amostral tem sido usada pelo grupo para realizar cruzamentos com outras variáveis ligadas à saúde e à prática de atividade física. Segundo Florindo, agora uma das linhas de pesquisa pretende relacioná-las com alimentação.
O trabalho recebeu apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Ambiente construído, atividade física e estado nutricional em adultos: um estudo longitudinal” e de bolsa de pesquisa da BRIDGE Global Health Partnership, financiada pela Universidade de Birmingham e de Illinois.
O artigo Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1186/s12966-026-01900-5.
- Citação: Miranda, A.A.M., Santana, D.D., Schwingel, A. et al.Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil. Int J Behav Nutr Phys Act 23, 64 (2026).
Baixe e leia a publicação completa e original, nesse LINK
Timóteo Araújo
Profissional de Educação Física, com experiência de 25 anos na área da Atividade Física, Vida Ativa e Longevidade. Atuando no Centro de Convivência AMI - Bem Estar. CREF/SP 06432

